Uso de defensivos químicos

13/05/2010 22:05

É necessário que se inicie o uso controlado dos defensivos químicos na Chapada do Apodi, com fiscalização dos órgãos competentes e dos moradores

Numa audiência pública realizada em Limoeiro do Norte sobre o uso de agrotóxico na Chapada do Apodi, nesta quarta-feira, foi apresentado o resultado da coleta de 46 amostras de água feita pela médica e professora Raquel Rigotto e sua equipe de 24 pesquisadores, na qual ficou constatada a presença de substâncias de alta toxidade. Ressalte-se que a água é consumida por moradores da área, sobretudo de localidades como Tomé, Santa Maria e Cabeça Preta.

A Universidade Federal do Ceará realiza pesquisas há três anos sobre os impactos do uso de agrotóxicos pelos produtores de fruticultura na Chapada do Apodi com uma equipe procedente de diversas instituições. Já se sabia que a contaminação dos mananciais vinha atingindo a população, mas, agora, há um laudo científico comprovando os malefícios, sobretudo doenças como câncer (leucemia), dermatite alérgica, problemas neurológicos, doenças do fígado e dos rins e até má formação de fetos.

Os produtos químicos são usados na pulverização de frutas, através de aviões, sobretudo nos bananais da região. Foi, aliás, contra essa situação que se ergueu a voz do líder comunitário e ambientalista, José Maria Filho, que pagou com a vida a ousadia, sendo assassinado por pistoleiros, no mês passado, a mando de quem se sentia incomodado com as denúncias.

O mais absurdo é saber que existe uma lei aprovada pela Câmara Municipal de Limoeiro do Norte proibindo a pulverização aérea. Mas é como se não existisse. O pior é a tentativa do prefeito local de revogar a legislação sob o argumento de que a atividade produz muitos empregos. Trata-se da velha lógica do desenvolvimento a qualquer custo, tão cara aos fundamentalistas do mercado. É verdade que a questão econômica não deve ser desprezada, mas já existem meios tecnológicos capazes de obter os mesmos resultados econômicos, sem necessitar contaminar as pessoas com água envenenada.

Aqui mesmo no Ceará pesquisadores já conseguiram produzir defensivos agrícolas naturais capazes de dar uma resposta adequada à situação. Mas, para isso, é preciso haver consciência elevada, por parte dos produtores, e senso de dever por parte das autoridades do Estado, para por em prática a alternativa mais viável e consoante com a defesa da saúde da população.

Para isso, é preciso ver além da "praticidade" e do imediatismo, uma vez que há um valor maior a preservar: a vida das pessoas. É preciso, urgentemente, adotar o uso controlado dos defensivos, trabalhando com a perspectiva de aboli-los, mesmo que isso exija um esforço logístico de maior envergadura. Afinal, estão em jogo vidas humanas. 
 

Fonte -->  http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/opiniao/2010/05/13/int_opiniao,983416/b-uso-de-defensivos-quimicos-b.shtml